Por Renato Melón
Essa história aconteceu com um tal de "Otaner".
Era sexta-feira à tarde, quando Otaner estava em sua rotineira biblioteca, debruçado sobre seus livros. Estudando com o maior afinco possível, porquanto nada mais lhe restava a fazer. Estava ele e seus dois companheiros de estudo e de alienação à ciência. Afinal, esta era sua capacidade.
Eis que, de repente, soa o celular de nosso personagem. Era a sua mãe, informando-lhe que a Embaixada da Espanha em Brasília havia, enfim, confeccionado a sua certidão de nascimento espanhola. Houve-se a necessidade de ir imediatamente a dita cidade.
Ainda risonho com a heróica vitória tricolor na Libertadores, Otaner, e sua mãe, pegaram o vôo da segunda-feira.
Tudo correra bem e o escopo da ida fora realizado.
***
Contudo, o vôo da volta foi um filme de Hitchcock, misturado com cenas de "Taxi Driver", de Martin Scorsese, com momentos dirigidos por Ingmar Bergman, tal qual em "O Sétimo Selo".
Em suma: suspense, esperança, solidão, medo e conclusão.
Tudo havia começado mal:
Ao entrar no aparato aéro, à noite, a empresa aérea determinou uma troca de aeronave, após todos terem entrado. O motivo era uma suposta manuntenção, que iria ser exercida em Guarulhos. Sua mãe, mais supersticiosa que Otaner, já estava com pupilas de preocupação.
Trocaram de avião; atrasou-se mais 50 minutos.
Enfim, partiram de volta à casa.
No momento en que quase se sobreovoava os ares da cidade de sua casa, uma linda moça de olhos azuis e traços faciais cândidos se pôs a falar com Otaner, a medida que uma torrente tempestade, acompanhada de malignos raios, acercava-se do avião. Ela estava curiosa quanto ao livro que ele estava lendo, "Rumo à estação Finlândia".
Confesso que aquela atitude lhe surpreendeu a Otaner , afinal... Afinal.
Não obstante Otaner não querer parecer ser o mais idiota possível, a bela moça ainda se colocava a falar, e a incitar diálogos cada vez mais pessoais. Uma esperança - que se lhe quedou mais temerosa a Otaner com suas experiências - passou a renascer: a garota poderia estar afim dele, mas o avião, ao que parecia, estava prestes a cair!
Água, solavancos e raios hermetizavam a confiança duma chegada e instauravam o medo.
O chamado "filme dos momentos finais" acabou passando pela sua cabeça: Fluminense, família, estudos, etc... Tudo seria em vão?
O avião tentava pousar.
A garota tentava conversar.
Estava nervosa.
Seu namorado, também chamado Otaner, lhe esperava no aeroporto; lhe esperava no aeroporto; lhe esperava no aeroporto.
O avião pousou; a esperança caiu.
Voltou pra casa, selecionou seus livros para a rotina de estudos do dia seguinte.
Amanheceu. Pôs a camisa tricolor; estava ansioso para que chegasse o jogo contra o Nacional do Urugai pela Libertadores.
Chegou à biblioteca. As três cores que traduzem tradição lhe diziam o porquê de estar ali de novo. Pois não há nada de novo. Só o Fluminense.
No meio de seu estudo, parou e escreveu:
"Vivendo, sou grego: só penso. Nos sonhos, sou romano: ajo. E fica por isso mesmo".
Eu sou Fluminense; e por isso estou aqui.
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